OS "SEGREDOS" DA CAPOEIRA
"Sei que tu falou de mim, 
sei que de mim tu falou... (...)
mas tu vais sentir saudade 
daquele que te ensinou" !
Mestre SUASSUNA - 1972?
(trecho inicial de ladainha) 

Vamos imaginar a Capoeira em 1908, ainda perseguida, detestada, marginalizada e ilegal, tipificada como CRIME. É nesse ambiente hostil que se dará no Rio a célebre luta do praticante japonês de JiuJitsu, famoso em meio Mundo -- "Conde Koma" era seu cognome -- com um "capoeira" qualquer. Porque um "capoeira" se arriscaria a ser preso, identificando-se praticante ? Como um imigrante recém-chegado se meteria "numa roubada" dessas, correndo o risco de ser deportado : 
Apesar desses senões a luta do invencível Mitsuyo Maeda com um "capoeira" comum teria existido, teve público, contou com a presença de jornalistas e foi notícia no dia seguinte, sem que a Polícia prendesse nem vencido e nem vencedor, por prática de crime. (Alguma coisa está errada nessa estória !) 
Dizem uns que o "capoeira" superou o japonês com um "rabo de arraia" ou coisa parecida... dizem outros que, ao ver o "china" inclinar-se para cumprimentá-lo, julgou o gesto como ataque e "saiu na frente", com fulminante nocaute. Mas, há ainda uma terceira versão: o tal Ciríaco enchera a boca com saliva e, ao soar o gongo, dera pujante cusparada nos olhos do "amarelo" que, meio cego, não resistiu aos golpes e pernadas do malandro. O ex-invencível "Conde Koma" viria em seguida a Belém para novo vexame, agora contra um certo "Pé de Bola" !
 
Da suposta luta numa praça de Belém pouco se sabe, me parece que não foi noticiada... há duas versões, uma na qual o "malandro" -- provavelmente deficiente físico, "denuncia" seu apelido -- munira-se de navalha, que limita os movimentos e perdera a contenda. No outro "discurso "Pé de Bola" teria vencido o oriental, sem mais detalhes, isso por volta de 1910, quem sabe. (Maeda chegou ao Brasil em 1914, segundo dados.) Seria dessa época crônica local descrevendo as peripécias do desordeiro e narrando a corrida de uns 600 metros feita por êle, Avenida Pres. Vargas abaixo (era outro o seu nome), a multidão atrás e mergulhando nas águas do Guajará para escapar à fúria do populacho. (*1) 
Porque alguns "capoeiras" dessa tumultuada época não eram presos, "Madame Satã" entre êles ?! Ou não seriam verdadeiramente "capoeiras", ameaças reais à integridade alheia e para a segurança pública. Porque bispos, escritores, causídicos e jornalistas daquele tempos-- todos praticantes da "brincadeira de Angola" -- eram tão discretos, enquanto alguns desordeiros foram reconhecidos por meia cidade como... "capoeiras" ?! Ou não seriam êles efetivamente DO MEIO, apenas vadios fanfarrões "se aproveitando" da fama que a prática dava ?! Porque um bom "capoeira" lutaria com navalha, que tolhe seus movimentos e é um perigo para o próprio portador ? Alguém tem essas respostas ?! 
 
Existe no Brasil hoje um "enxame" de pesquisadores, todos apenas REPETINDO o que já foi escrito ! Precisamos de um que procure os jornais da época, as Federações de JiuJitsu (KODOKAN), a família de Maeda -- que morreu no Pará, "de sede" pancadas arruinaram seus rins -- ao menos para DESMISTIFICAR muita "historinha". LI -- ninguém me contou -- em antigo artigo de revista (*2) de Artes Marciais, dos anos 80, que foram seus discípulos que efetivamente teriam feito as lutas, Mitsuyo Maeda JAMAIS LUTOU aqui no Brasil. Como só chegou em 1914 e tais lutas teriam acontecido anos antes, isso descarta "pesquisas" feitas por vaidade ou interesses, que "empanam" a verdade e "nocauteiam" a História ! 
 
Os anos 2000 vêem nascer uma "procissão" de pesquisadores (?!) que, tendo sonhado algo, põem no papel as "descobertas", sem maiores preocupações. Toda pesquisa é uma armadilha, se aceitarmos o primeiro indício como VERDADE final perdemos tempo e credibilidade. Quando entrevistei 2 famosos nomes locais, em 3/1989, as incongruências em suas estórias de vida eram tantas que, ao dar-lhes cópia do relato, um deles exigiu a fita casette (para "seu acervo"), fita minha e gravada em meu rádio-gravador. Cremos hoje que a intenção fosse desmoralizar "os cariocas", desmentindo nossas futuras declarações sobre êles. 
Quem vai à caça de diversas fontes "quebra a cara"... quem as encontra "quebra" da mesma forma ! Conceituado mestre baiano com 3 obras essenciais à compreensão da Capoeira dos anos 50/60, diz num dos livros que, se não gostava da pergunta (ou do entrevistador) MENTIA... e como ficam os futuros pesquisadores ? "Na merda" !!! 
Mestre Atenilo diz que "Pastinha não saía da academia de Bimba..." e ninguém questionou isso, até agora. Logo, posso concluir que os "balões" que constam de filmes dos anos 50 teriam sido "copiados" da Regional, do mestre maior dela. Alguém ousaria afirmar isso ? 
À procura das"raízes" da Capoeira de Belém acabei num "site" com livro a 4 mãos sobre as origens "carioquíssimas" da Capoeira maranhense... é um "samba do crioulo doido" e tal referência é por si só racista ! O prefaciador admite (adverte ?): "são relatos cheios de SEMI-VERDADES..." e a declaração é quase um alerta ! Apenas com relação à fundação de um certo Grupo BANTUS (ou Bantos) há 3, 4 versões, uma "difícil de engolir": 2 mestres do Rio em 1967 ou 70 ou 72 LARGANDO TUDO para ir criar (ou inaugurar, não fica claro isso !) o citado Grupo em São Luís, 3 DIAS de viagem em ônibus -- aviões eram caríssimos e, de graça só os da FAB, agendados 3 meses antes -- sem nenhum conforto.
 
Estivemos -- em nossos primeiro dias, 1974/75 -- na academia de famoso mestre antigo, "camuflada" numa ruazinha do Leme, bem próxima a de Angola do jovem "Neco", não sei se já com título de mestre, mas tendo qualidades para tanto. Jogou êle com Camisa, que raramente visitava Academias... embate histórico de cérebros privilegiados, domínio total dos corpos, malícia no auge ! Quem não assistiu, peça pra morrer !
Voltemos ao mestre (AE), baiano ao que parece... não lembramos (meu irmão nem eu) de instrumentos tocando, cantos, palmas, NADA. Aparentemente (?!) já estavam jogando... saltos, gritos, vôos "ao estilo Telecatch Montilla" ! Não ficamos 5 minutos ! (OBS: nessa vida de andarilhos, "Camisa" me flagraria -- eu já na Senzala -- participando de Roda de um gaiato travestido de mestre, "Anghellino de tal"... "Zé Tadeu" -- assim o chamava um certo "Capixaba" -- sugeriu acabarem "com aquela palhaçada", só  não sei se voltou lá, eu não voltei. O local era num Parque ou escola infantil nos confins de Botafogo, acho.)
Como o Destino adora "sacanagens" vejo hoje mestre "Sorriso" -- também da Senzala -- E-ELOGG-GIANDO (desculpem, engasguei !) esta, na época, espalhafatosa figura. Num casarão próximo ao Jardim Botânico vi-o vestido de "kungfu" dando aulas... de Capoeira, para 5 ou 6 jovens. São "águas passadas"... espero que o Tempo lhe tenha ensinado alguma coisa e que, agora, mereça o título que ostenta ! 
 
Digo sempre que a Capoeira não precisa de "ILUSÕES" e o maior erro de entidade-mor foi "glorificar" (em 1993) esse tipo de "mestre", apenas porque ERA VELHO no nosso meio ! Voltemos às pesquisas... espécie de "secretária de Grupo" de Capoeira entre 1987 e 90, uma pesquisadora local afirma que "o romance HORTÊNSIA, de Marques Carvalho, cita um "capoeira" como personagem principal". Li-o meio sonolento, à luz de vela, por 3 ou 4 dias e não lembro de tal assertiva. O romance, muito discriminador, foi escrito por volta de 1890 e publicado lá por 1910... portanto, admitindo-se que o escritor conhecia Capoeira e a presenciou aqui em Belém, temos aí "novo gancho" para destrinchar as reais ORIGENS da Capoeira local, a dos tempos modernos, no caso. Insisto -- em romances ou na vida das cidades -- sobre o costume secular de tachar todo vadio ou inútil de... "capoeira", embora pouco ou nada soubesse da prática. 
Oh, os nobres leitores ficaram decepcionados por não encontrar no texto nenhum "segredo" ?! Pois essa frustração o pesquisador tem a cada instante, após folhear dezenas de livros, jornais e revistas sem achar algo que embase seu "palpite" ou teoria. Os SEGREDOS da Capoeira -- se existem -- se foram junto com antigos mestres da Angola. Restaram apenas... as "FOFOCAS" !
    "NATO" AZEVEDO (em 6-7/março 2021)
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OBS: (*1) 1908/1910 - não são datas precisas, me valho do que sobrou de minhas lembranças, quem quiser que vá investigar a data exata.
(*2) - meu irmão cedeu em 1995/6, para um jovem do Museu da UFPA em Belém, cópia da revista que poderia ser DIVULGADA, o que não interessou ao rapaz. Assim, em LIVROS e "teses", foi Conde KOMA quem lutou !